Crónica da Desigualdade

Nesta segunda-feira, dia 19 de Novembro, tive o prazer de assistir à conferência Regulação, Média e Igualdade, organizada pelo ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), que aconteceu na Universidade NOVA de Lisboa. Estive presente em duas das mesas redondas cujos assuntos são tão reais aqui em Portugal quanto em qualquer outro lugar: Violência de Género na Televisão e Media e Igualdade.  O ERC divulgou o seu estudo Representações da Violência Doméstica nos telejornais de horário nobre, e reuniu especialistas para debatê-lo.

Muitas boas questões foram levantadas – e falaremos de algumas delas num segundo -, mas o formato em si das mesas redondas evidencia a raíz do problema do qual a violência doméstica é um sintoma. Como acima mencionado, o evento contou com a participação de pessoas ligadas à grupos mediáticos  e organizações dedicadas à auxiliar vítimas de violência doméstica. Pois bem: temos que, dos 6 que integrantes do debate Violência de Género na Televisão, 4 deles eram homens; na sessão Media e Igualdade, estes eram 3 de 5.

E aí vem uma das minhas perguntas: quantas mulheres ocupam os cargos que são considerados com propriedade para não só discutir sobre, mas também resolver os problemas atrelados à desigualdade de género? A participação da Presidente do Sindicato de Jornalistas, Sofia Branco, foi, no meu ponto de vista, genial por uma dezena de motivos.

Um destes motivos é o facto desta ter explanado ao longo de todo o seu comentário que o abuso de que muitas mulheres são vítima parte sobretudo de uma concepção machista da realidade. E que tal concepção está também no subconsciente de muitos daqueles que decidem como retratar essa violência na média. Por vezes as posturas editoriais não são de uma iniciativa contra esse preconceito, mas apenas de seguir o que é politicamente correto.

Existem várias formas de gerar maior clareza em como alguém pode se defender do abuso físico e psicológico a que chamamos violência doméstica. Os media podem começar, por exemplo, a explicar melhor a diferença entre esta e a violência de género, que gera taxas absurdas de feminicídio até os dias de hoje. Também seria uma boa mudança se não deixassem tais temas apenas para o final dos últimos jornais do dia, quando o publico está cansado demais para prestar a devida atenção ao que se passa, bem como se não contassem somente os casos que acabaram da maneira mais violenta sobre cujos detalhes muitos não tem o estômago para ouvir.

Como disse Daniel Coutrim, Assessor de Direção da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), há, felizmente, diversas situações em que ambos quem sofre com a violência e quem a faz conseguem reverter a situação e seguir seus caminhos. Seria de um impacto positivo muito grande se a media mostrasse este lado para aqueles que tem medo de denunciar, de buscar ajuda. Temos de lembrar que a violência doméstica em si é algo de que homens também sofrem, e que ainda há quem veja como sinal de fraqueza por parte da vítima, inibindo-a de procurar uma solução. Coutrim também falou que trata-se acima de tudo da defesa dos direitos humanos, os mais básicos.

Acima trago algumas das várias sugestões que os especialistas explanaram ao longo da conferência e que o citado estudo Representações da Violência Doméstica nos telejornais de horário nobre menciona. O que é crucial para acabar com este e qualquer sintoma é quebrar o que ainda existe de machismo no subconsciente de muitos, e de maneira mais latente em outros.

Voltando a questão que pus, existe uma desigualdade em quem encontra-se no comando, não só entre os media, mas em todos outros setores. Mesmo que estejamos falando de cargos menores, é de conhecimento geral que a mulher chega a ganhar mais de 10% à menos do que seus colegas homens que exercem as mesmas funções. 

A Diretora da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo da Universidade Lusófona, Carla Rodrigues Cardoso, apresentou no início da mesa redonda Media e Igualdade um slide em que evidenciava a sexualização da mulher pelos media, nomeadamente a forma como estes representam até mesmo figuras femininas importantes na sociedade. Trata-se de uma série de comportamentos que perpetuamos em comerciais, capas de revista e até mesmo em livros escolares que são feitos mais fáceis para as meninas do que para os meninos. 

A ideia de que a mulher não é tão competente quanto o homem ou que ela é meramente um rosto bonito pode não estar tão explícita agora quanto há umas décadas atrás, porém ela continua. E, enquanto isto for verdade, será difícil falar sobre a violência que estas sofrem, a insegurança que sentem andando na rua sozinha, a complacência com muitos comportamentos de discriminação por medo.

É, como falou o escritor e professor Rui Zink, um obstáculo que está vigente há séculos e que deve começar a ser superado o mais rápido o possível, mas um processo que leva tempo. São concepções tão enraizadas na mentalidade de alguns indivíduos que chega a ser utópica a possibilidade eliminar tal preconceito de uma vez só. Porém, como a série de estatísticas que o estudo divulgado pela ERC aponta, a necessidade de combatê-lo é questão para muitos de garantir a própria segurança, e portanto não deve ser levada levianamente.

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