Como Foi: Ensino Médio em Portugal

Mudar de país envolve muitos aspectos cujas mudanças vão de sutis para o absolutamente diferente. A escola com certeza foi a diferença que mais me impactou. Desde a forma como o ano está organizado ao sistema educacional em si, quase nada condiz com o jeito brasileiro. Adaptação aqui é, então, a palavra chave. Considerando que cheguei mesmo no último ano do ensino médio, a experiência que vos trago aqui foi intensa, mas interessante e acima de tudo valeu a pena. Venho pensando bastante na melhor forma de explicar tudo o que esse 1 ano significou para mim, e acabei por decidir na seguinte forma:

 

1 – Poder escolher um curso de acordo com a área que quer.

Ao contrário de como funciona no Brasil, não tens que estudar as quatro principais áreas. Podes focar naquilo que está mais relacionado com o que pensas fazer na faculdade, ou ao menos limita-se às matérias com as quais tem maior intimidade. Eu, por exemplo, decidi pela área de Línguas e Humanidades, que giram em torno da História e do Português, disciplinas obrigatórias. Um dos propósitos é que ao longo dos três anos possas ver o que gostas e o que desgostas e então tenha maior base para escolher o curso superior.

O que tens que considerar, portanto, é o que te deixa mais confortável: quais disciplinas preferes ter, pois não só será uma grande carga de aulas, mas no final do segundo e terceiro ano de ensino médio terá que fazer exames de duas delas que pesam na sua média final do secundário e, sendo assim, também na nota que usará para entrar na faculdade. Tais provas valem metade da sua nota, então determinando se concluirá o ensino médio ou não

Não sei muito sobre esta, mas há a possibilidade de fazer um curso profissional, um formato de ensino médio parecido com os nossos técnicos. Apriora-se em, por exemplo, comércio ou informática. Algumas escolas disponibilizam mais opções do que outras. Deles saí diretamente podendo trabalhar como técnico na área escolhida.

2 – Tens apenas 5 disciplinas no último ano.

Vista da biblioteca, onde passava os tempos que tinha livre entre aulas.

Destas cinco, duas são as obrigatórias do curso – no meu caso, Português e História -, duas são optativas e a outra é educação física. As obrigatórias tem maior carga horária (1 hora e meia, 3 dias por semana), enquanto as que escolhes e a educação física são as mesmas 1 hora e meia, mas apenas em 2 dias por semana.

Em geral, tens tempo para focar nas que terão maior peso e que te darão mais trabalho também. Terás algumas tardes, manhãs ou até mesmo um dia inteiro livre. A melhor opção é usar estes pedaços de calendário livres para adiantar o que foi assinalado em sala e revisar as matérias dos anos anteriores que fazem parte do vestibular e mesmos dos testes ao longo do ano.

Falo isto porque sou prova viva de que procrastinar nestes pedaços de liberdade pode te custar muitos pontos tanto dentro das matérias quanto nos exames que, como eu disse ali em cima, ocorrem no final do segundo e terceiro ano. A sua nota de acesso à faculdade e mesmo o fato de concluir ou não o curso tem um peso muito igualmente distribuído ao longo de todas as atividades que vão te ser propostas.

Isso pode ser ótimo por vários motivos: não tens a pressão toda em cima do seu desempenho em dois dias, mas em mais de seiscentos deles; algumas atividades vão ser mais fáceis que outras, aumentando as suas chances de um bom resultado final;  caso uma matéria não seja bem o seu forte, tens mais possibilidades de corrigir seu desempenho porque haverão mais futuras; etc.

3 – O campus.

Entendo que a realidade que vivi não é a mesma que de muitas escolas portuguesas, mas não podia deixar de elogiar. Moro em Oeiras e estudei numa das maiores escolas do agrupamento de Paço de Arcos. Foi mesmo uma questão de tudo parecer encaixado para ser perfeito, porque ela havia terminado de ser reformada no ano anterior.

No Brasil, frequentei escolas particulares por muitos anos e nenhuma delas chegava aos pés desta última. Todos os prédios tinham um desenho moderno e grandes janelas que de onde dava para ver o mar. Não tinha nada de estrutura que faltasse ali, incluindo laboratórios, salas de desenho e mesmo oficinas para o curso profissional de mecânica.

O que mais me impressionou, entretanto, foi o número de pavilhões, quadras e todo o mega espaço que havia para acomodar o grande número de alunos. Há o refeitório, onde a maioria dos alunos comem à um preço acessível, e o bar, que é mais próximo da nossa cantina. Algo que muitos usavam também eram os cacifos, o que nós chamaríamos de armários, e estes eram alugados por uma anuidade a qual não recordo.

4 – Interculturalidade.

Minha escola tinha um grande número de estrangeiros, tanto outros brasileiros como eu, quanto pessoas de outros cantos da Europa e de mais alguns países que antes eram colónias portuguesas. Por isso mesmo haviam aulas dedicadas ao ensino de português para quem não o tinha como língua nativa, entre outra plataformas de os integrar à comunidade lusitana.

Eu e a Lucia, aluna de intercâmbio da Itália 🙂

E o fato de ser estrangeiro já significa que a realidade à sua volta vai ser uma cultura diferente da sua. O melhor à fazer é estar aberto para conhece-la, participar dos eventos promovidos pela associação de estudantes, experimentar ver as coisas como os portugueses as vêem. Isso não quer dizer que tens que deixar de ser quem és ou ignorar a sua nacionalidade. Pelo contrário: é uma forma de agregar ao que conhece e tornar mais fácil a convivência.

5 – Liberdade para escolher a roupa que vai usar.

Hm, ok, este tópico aqui é o mais fácil de amar e de odiar. Apesar de eu só ter amado mesmo, sei que algumas pessoas podem ficar mais preocupadas do que eu fiquei com outfits e coisas assim. Para mim, a chance de ir para a escola com qualquer coisa significou poder usar minha saia xadrez com suéterzinho cinza, toda top. Mas também foi, em várias manhãs, ir quentinha com leggings e moletom – basicamente o que uso para dormir.

Depois de anos usando os uniformes mais genéricos e desconfortáveis de todos os tempos, ter a liberdade de ser a barbie girl ou ir com o meu travesseiro fez dos meus dias algo muito melhor. No Halloween e Carnaval é que vemos mesmo mais criatividade por parte dos alunos, muitos indo fantasiados ou literalmente em pijamas-macacões (é assim que se chamam? Corrijam-me se eu estiver errada 😄).

6 – Três férias ao ano.

É a recompensa por ficares, em alguns dias, 8 horas na escola. No final de cada trimestre – aqui chamado de período -, tens aproximadamente 2 à 3 semanas de férias. A primeira pausa acontece na época do Natal e a segunda por volta da Páscoa. As maiores férias são, como devem imaginar, as de verão. Elas vão mais ou menos do final de junho à segunda semana de setembro.

Ya girl, nas férias de verão

Não se enganem: há professores que vão passar trabalho para ser feito durante as férias, bem como alguns que vão marcar testes para logo depois dos intervalos. Mas não deixa de ser um tempo para viajar, ou simplesmente ficar jogadão no sofá descansando.

Uma das tradições para os alunos do terceiro ano é a viagem de finalistas nas férias de Páscoa. Cada associação de estudantes arranja um tipo diferente de pacote – e existem mesmo as mais variadas opções, desde dentro de Portugal até por outros países da Europa. Eu particularmente não fiz viagem alguma nesta época, porque preferi guardar os quatrocentos e poucos euros. Mas é uma escolha que vai de cada um, e todos que conheci que foram gostaram.

7 – Flexibilidade dentro das matérias.

O conteúdo é mais/menos o mesmo em todas as escolas, com todos os professores, pois há os tópicos previstos pelo programa. A flexibilidade está tanto na abordagem que cada lugar vai te dar daquela matéria, quanto na forma como distribuem as porcentagens de cada avaliação.

Tive professores que eram mais voltados para testes, e então faziam dois por período. O restante da avaliação eram as atitudes, os trabalhos de casa e os de aula. Outros diluíram o que seria só teste em também trabalhos de grupo periódicos, ou fichas – formato semelhante ao do teste, mas de menor peso para a nota final.

O formato das avaliações e quando eles ocorrem também depende de cada professor, que costuma dar algum espaço para os alunos intervirem na data que nos calha melhor.

8 – Auto-avaliação

Sim, isso mesmo que você leu. No final de cada período, na última semana, cada professor cede uma aula para escutar o que cada aluno acha que deve ser a sua nota, especialmente a referente ao comportamento. Também é o momento para confirmar se as notas que tens de testes, fichas e trabalhos condiz com a que está no sistema.

Falar o que acha que deve ser a sua pontuação não significa que o professor vai te dar exatamente o que pedes. Mas pode aproxima-lo de decidir por algo que te favoreça, dependendo da situação.

Ah, e é válido mencionar também que os professores falam as suas notas alto na frente de todo mundo, bem como mandam e-mail e afixam nas paredes os resultados de todos. Eles são bem diretos em falar tudo para qualquer um. Se tiver que ralhar contigo no meio da turma toda, vão falar e sem papas na língua.

Eu indicaria não tentar revidar ou cair na tentação de responder no mesmo tom, pois o professor sempre tem a razão e o que pode te acontecer é prejudicar ainda mais as coisas. Falando por experiência própria, escutei muito que não gostaria de ter ouvido, sobretudo tão publicamente. Mas, mantendo a compostura e sem agir do mesmo jeito para com os professores, consegui me formar com uma grande média 😉.

9 – Baile de finalistas e outras celebrações da escola.

Existem mais eventos proporcionados pela escola e pela associação de estudantes do que eu imaginava. Um deles é a eleição para a lista (uma espécie de partido de estudantes para constituir o grêmio), em que cada grupo concorrente promove shows, almoços e coisas assim entre as aulas.

Ao longo do ano, de acordo com a lista que for eleita, há mais celebrações dos feriados e coisas assim. Eles também são responsáveis por organizar o baile de finalistas, uma gala que ocorre no final do terceiro ano. Pagas um ingresso (o preço obviamente varia, o meu tendo custado 47 euros) e o resto é só festa, sem nada para se preocupar!

Meu baile foi numa quinta, como a maioria deles é. Teve uma pequena recepção, um jantar e o resto foi só dançar e aproveitar por todo o espaço. Eu particularmente amei andar nos balanços de vestido de gala e saltos 😁.

E aí? O que achou? Quer sugerir algo? Deixe as suas opiniões nos comentários! Elas são mais do que bem vindas ☺️ Também obviamente aceito dúvidas e qualquer questão coisa que não tenha ficado clara ao longo deste post.

Até o próximo post!

xoxo,

Michelle Lebres.

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